A Linguagem Hermética

Neste ponto, devido ao caráter místico envolvendo os ensinamentos da maioria dos grandes mestres alquimistas, entre eles Roger Bacon e Paracelso, é apropriado buscarmos uma definição sobre o patrono da alquimia em seus mitos mais populares, com o intuito de esclarecer metáforas e conceitos que aparecem na historia da alquimia, de como eles influenciaram suas bases mitológicas e o caminho contrário, como estas crenças influenciariam em suas atividades práticas no laboratório.

De acordo com Brandão (1999), no mito grego, Hermes era filho de Zeus e de Maia e demonstrou-se uma criança habilmente precoce. Logo depois do seu nascimento, enfaixado e repousando no vão de um salgueiro (símbolo de fecundidade e imortalidade), o bebê desligou-se das faixas (sinal do poder de ligar e desligar) e se não fosse o bastante, em seguida roubou um rebanho guardado por ninguém menos que Apolo, o deus solar.

Depois de amarrar folhas nas patas dos animais para cobrir seus rastros, escondeu-se numa caverna, sacrificou duas novilhas aos deuses e dividiu a oferenda em doze partes – apesar dos deuses serem apenas onze. Através desse ritual o recém nascido deus promovera a si mesmo como décima segunda divindade do Olimpo. Antes de partir para casa, escondeu o resto do rebanho e matou uma tartaruga, juntando a carapaça e as tripas das novilhas sacrificadas, construiu a primeira lira. Apolo não tardou para descobrir quem foi o ladrão de seu rebanho, confrontando Maia exigiu punição para o culpado. A mãe do menino protestou devida a pouca idade de seu filho, mas quando o deus de Delfos viu as tripas dos animais mortos, não teve dúvidas e apelou para Zeus. O senhor dos deuses interrogou Hermes, este persistiu na negativa e mesmo quando forçado a revelar a verdade ao seu pai, jurando nunca mais mentir novamente, acrescentando, todavia não ser necessário nunca deveria dizer toda a verdade.

Conta-se que seu irmão Apolo, ao ouvir a melodia da lira, propôs trocar o rebanho roubado pelo artefato de som divino. Então quando Hermes cuidava de seus novos animais, fabricou a “flauta de Pã”, encantado pelo som do novo instrumento, desta vez o deus do sol ofereceu seu cajado de ouro, o mais novo membro do panteão aceitou, mas, além disso, pediu lições de adivinhação para fechar negócio.

Conforme Brandão (1999), sua origem evidencia o caráter de “senhor dos que realizam seus negócios à noite”, Hermes era um deus trapaceiro, companheiro amigo tanto dos comerciantes quanto dos ladrões. Era também o protetor das estradas e companheiro dos homens, assim como Dionísio, conhecido como o menos olímpico dos imortais.

Sua função aparentemente menor e mais conhecida como mensageiros dos deuses, atribuía habilidades especiais ao argiloso deus grego. Podendo circular livremente entro os três níveis (superior, terrestre e inferior), Hermes era um deus psicopombo – um condutor das almas – que agia não somente através da inteligência e astúcia, mas também com a gnose e a magia.

Assimilado ao deus egípcio Toth, mestre da escritura e, por conseqüência, da palavra e da inteligência, mago terrível e patrono dos magos, que já no século V a.C., era identificado a Hermes, como ensina Heródoto, bem como ao inventivo e solerte Mercúrio romano, o deus de Cilene, com o nome de Hermes Trimegistro, isto é “Hermes Três Vezes Máximo”, sobreviveu através do hermetismo e da alquimia, até o século XVII. (BRANDÃO, 1999 pág. 197)

A iconografia de Hermes assinala Brandão (1999), apresenta-o com um chapéu de formato especial, um caduceu com duas serpentes entrelaçadas na parte superior e sandálias com pequenas asas. O chapéu, além de ser um sinal de identificação, pode representar autoridade e soberania, para Jung a possibilidade de trocar-se o chapéu, indica a mudança de idéias, uma visão diferente de mundo. As sandálias aladas representariam o domínio dos três níveis, um sinal de elevação mística, da imortalidade e do elixir da vida. Por fim o caduceu com as serpentes entrelaçadas em sentido oposto representaria o equilíbrio das forças opostas; diurna e noturna; bem e mal; direita e esquerda.

Conforme Flaherty (1993), outra corrente mitológica considera Hermes Trimegistro como o primeiro grande sábio da humanidade, encarnação humana de Toth que teria vivido por 3.226 anos, reinando como faraó no Egito, autor de 36.525 livros, contendo todo o conhecimento humano possível.

Apesar de muitos serem os escritos apócrifos atribuídos a Hermes, o único aparente consenso entre os adeptos, segundo Hutin (1992), é sobre a “Tábua Esmeralda” uma espécie de poema esotérico onde estaria resumida toda a filosofia hermética e constariam inclusive instruções praticas para o adepto mais atento.

É verdade, sem mentira, certo e muito verdadeiro. / O que está em baixo é como o que está em cima e o que está em cima é como o que está em baixo, para comprimento dos milagres de uma só coisa. / E da mesma forma que todas as coisas foram e vieram do Um, assim todas essas coisas nasceram desta coisa única, por adaptação.  / O Sol é seu pai, a Lua é sua mãe, o vento trouxe-a no seu ventre, a Terra é a sua alma; o Telema (Telesma, perfeição) de todo o mundo está aqui. /  A sua potência não tem limites sobre a Terra. / Separarás a Terra do Fogo, o subtil do espesso, docemente, com grande indústria. / Sobe da Terra para o Céu e volta a descer imediatamente sobre a Terra e recolhe a força das forças superiores e inferiores.  / Terás assim toda a glória do mundo e é por isso que toda obscuridade, afastará de ti. É a força de toda força, porque vencerá toda a coisa subtil e penetrará em toda a coisa sólida. / Assim o mundo foi criado eis a fonte de admiráveis adaptações aqui indicadas. / É por isso que eu fui chamado Hermes Trimegisto, tendo as três partes da Filosofia universal. / O que eu disse desta operação do Sol é completo. (HUTIN, 1992) pág. 36

As duas correntes mitológicas atribuem uma origem egípcia ao patrono da alquimia, reforçando as informações sobre a importância do país do norte da África nos primórdios da arte, além das técnicas de metalurgia e da grande perícia de seus ourives e artesãos

A sugestão de que o Hermes alquímico foi moldado a partir de uma amálgama de dois deuses cujos domínios eram a linguagem, traz a tona o fato amplamente conhecido que o sistema de linguagem grego era muito diferente do sistema hieróglifo egípcio.

Se a alquimia é chamada “a arte de Hermes”, é bom lembrar que este deus grego é o equivalente ao egípcio Thot, a quem se atribui a invenção dos hieróglifos, legado máximo da civilização egípcia. (CARVALHO, 1995. Pág. 15)

Sobretudo do ponto de vista do design gráfico, é muito interessante a observação de José de Carvalho, sobre a hipótese que desde o princípio o pensamento filosófico hermético se diferencia da reflexão racional grega. O discurso argumentativo grego prescindia das imagens visuais e utilizava-se do discurso puramente escrito com palavras (grámmata), no entanto a linguagem da filosofia hermética é também baseada na escrita imagem – presente de Thot a civilização egípcia – diferente do filósofo argumentativo racional que tem como base o discurso escrita letra, o signo lingüístico, abstrato e arbitrário, desprovido de imagem simbólica – dádiva do deus Hermes para a civilização grega.

Foi neste contexto de perspectivas opostas de expressão de significado e de experiência do plano da sabedoria que se desenvolveu a forma literária da Alquimia, desenvolvendo um modelo de síntese entre o símbolo pictórico egípcio e a escrita signo argumentativa grega.(CARVALHO, 1995, pág. 16)

Portanto uma discurso hieroglífico que traduz perfeitamente a união entre as origens divinas do patrono alquímico, assim como a premissa de jamais revelar toda a verdade mesmo perante o mais coercivo dos interrogadores e de permanecer oculta ao mais atento observador, sendo necessário ser um iniciado para desvendar seus mistérios.

De acordo com Hutin (1979), durante o Renascimento surgiram possivelmente milhares de textos herméticos que faziam uso deste formato discursivo hieroglífico, todas as obras apesar de singulares, segundo Carvalho (1995) possuem uma estrutura narrativa em comum através de alegorias – “seja a busca de uma ave, uma pedra, um peixe, um ser mitológico, uma fruta, uma luz oculta, o próprio sol” – formando com a narrativa um todo indissociável que relatariam processos químicos e simbólicos para a obtenção da Pedra Filosofal.

O Mutus Liber possivelmente é o maior exemplo disso, em algumas pranchas do livro mudo alquímico o modo verbal de representação está completamente ausente, além da introdução ao adepto na primeira, com audaciosas referências a passagens bíblicas – que para serem decifradas, o leitor deve posicionar o livro em frente um espelho – existem pequenas frases nas pranchas quatorze e quinze e números árabes e romanos nas cinco, dez e treze.

Deve-se sempre lembrar o sentido totalizante das pranchas e de que se trata de um livro de alquimia que recorre  especialmente ao “obscuro pelo mais obscuro”. Porém da mesma maneira, atualmente temos ao nosso alcance um repertório muito mais amplo de leitura visual, além de inúmeros glossários alquímicos, com comentários de verdadeiros eruditos no assunto.

Mesmo assim, de acordo com Flaherty (1993), por mais de três séculos vários estudiosos tentaram em vão decifrar a “grande Bíblia da alquimia”, como é conhecido o Mutus Liber – que supostamente conter receitas factuais para a produção da pedra filosofal – mesmo aqueles que possivelmente possuem o repertório necessário para decifrar sua mensagem, escondem-se atrás da própria didática alquímica, na qual o que é ensinado com todas as palavras não possui qualquer valor.

Dessa maneira, esta pesquisa, tentando desvendar alguns dos mistérios dessa obra intrigante, fez uso desse excelente suporte teórico disponível sobre alquimia e a partir do conteúdo extraído dessas referencias bibliográficas, efetuou a análise das pranchas, estabelecendo um confronto entre as obscuras obras alquímicas e as atividades de um designer gráfico, como produtor e leitor de representações visuais complexas, especialmente os infográficos, testando inclusive os limites do design da informação.

Segundo a sBdi (sociedade Brasileira de design da informação), design da informação é uma área do design gráfico que objetiva equacionar os aspectos sintáticos, semânticos e pragmáticos que envolvem os sistemas de informação através da contextualização, planejamento e produção de interface gráficas da informação junto ao seu público alvo.

Para Collen (2004) infográficos buscam traduzir informações que de outra maneira demandariam extensos corpos de texto, através do equilíbrio entre o modo verbal e modo visual de representação. Ainda existe um amplo espaço para a discussão do que é a infografia e qual deve ser o nível de interação entre modo verbal e visual necessário para uma imagem ser considerado um infográfico.

A quase ausência do modo verbal, à primeira vista, parece excluir imediatamente o Mutus Liber do universo da infografia, contudo, o fato das representações do livro não serem apenas imagens, mas corpo de uma linguagem hermética – produto da união da escrita signo grega com a escrita imagem egípcia – da qual as quinze pranchas compõe um todo dissociável como observa Carvalho, é um alerta para revisarmos esta conclusão tão precipitada. As imagens presentes na obscura obra alquímica devem ser lidas como tais, ou seja, como produtos de uma linguagem hermética aonde a imagem não é somente um pictograma, mas um símbolo em potencial, provido de um sentido oculto, manifestando-se como um verdadeiro desafio ao leitor, convidado a fazer o livro falar.

Estabelecida esse ponto de partida para a leitura das obras alquímicas, o sistema de linguagem do Mutus Liber, o caráter instrucional da obra e o complexo conteúdo que abrange fazem do livro mudo alquímico um possível candidato a antepassado direto dos infográficos, colocando inclusive em xeque várias das definições existentes que chegam a limitar essa categoria de expressão visual a suportes e tecnologias especificas.

Definitivamente seria um erro abordar o Mutus Liber sem levar em conta que cada imagem carrega muito mais informação do que um leigo conceberia. Para isso José de Carvalho propõe um esquema para iniciar o leitor na leitura das obras alquímicas, estabelecendo os seguintes níveis de sentido:

  1. O sentido literal: das imagens ou das palavras.
  2. O sentido alegórico:
    1. Convencional ou emblemático: por exemplo; a águia representaria o processo químico sublimação do composto; o corvo a putrefação; o dragão a matéria prima. Etc.
    2. Esteganografia: tipo de alegoria que consiste em representar ingenuamente problemas de fácil solução, mas que debaixo de densa aparência oculta assuntos completamente opostos ao que aparentam, não somente os significantes particulares como também a totalidade do seu conjunto.
    3. O sentido Hermético: constituído destes esquemas particulares de alegorias e que também se desdobra em dois.
      1. O sentido espagírico: aonde o importante não é a literalidade da operação descrita, mas a contribuição alegórica a um determinado aspecto da ciência química.
      2. O sentido espiritual: que estabelece uma ligação entre a alegoria narrada ou expressa em imagens e o estado da alma do alquimista (seja o operador ou o leitor).

Essa busca é em tudo análoga a opus alquímica no seu esforço por descobrir a laphis philosophorum (pedra dos filósofos), cuja matéria una, é a um só tempo exterior e interior ao filósofo. (CARVALHO, 1995 pg. 19)

As pranchas de Altus, são exemplos deste complexo sistema de analogias, mesmo nos trechos mais semelhantes da narrativa, existem pequenas pistas para sua compreensão como um todo. Como nas de números de quatro, nove e doze, as quais indiciam um caráter temporal às imagens, através de uma sutil aproximação do cenário ao fundo com o primeiro plano, aonde trabalha o adepto e sua consorte.

Também estão expostas instruções de maneira intrigante, na prancha número quatro, por exemplo, o cabrito e o touro são uma referência astronômica aos signos do zodíaco que devem ser observadas no céu, no inicio da primavera do hemisfério norte indicando a época exata para o início da colheita do orvalho – entre os meses de abril e maio – que devem ser recolhidas para a próxima etapa na quinta prancha. Porém para penetrar neste universo da esteganografia é indispensável utilizar-se de toda uma bagagem de conhecimento sobre as tradições dos filhos de Hermes, assim como ter em mente que o estilo de exposição hermético é diferente do discurso racional argumentativo.

Enfim o autor do Mutus Liber pode muito bem ter concluído que sobraram gramáticas herméticas com descrições dos passos da Grande Obra e muito pouco era o que diziam de precioso sobre a mesma. Se queria revelar mais, seria justamente dizendo menos; e melhor de tudo seria nada dizer – mostrar as imagens, apenas, poderia ser eficaz e profundo.(CARVALHO, 1995, pág. 20)

Para Carvalho (1995), quando Altus publicou o Mutus Liber em 1677, sua natureza já estava bem deslocada do interesse da época, sendo que além de realizar um trabalho ousado até para as pretensões alquimistas, a publicação de uma obra que se propunha a expor todos os segredos dos Filhos De Hermes, parece frágil diante da complexidade do assunto e seu caráter mítico e erudito.

E, ao fazê-lo, ele não somente se dispõe a expressar “toda a filosofia hermética” (como veremos na primeira prancha), mas também desafiou frontalmente essa filosofia, da forma que começava a se apresentar em sua época: pois Hermes, o pai da Alquimia, paradoxalmente, já não trazia mais a escrita hieroglífica, mas uma escrita que voltava a ser mera letra, isto é, uma escrita veneno. (CARVALHO, 1995, pág. 21)

Toda a Obra alquímica pode parecer irrelevante diante às conquistas do discurso racional argumentativo e da ciência contemporânea, mas é importante lembrar que os alquimistas, desde os primórdios da humanidade, sempre estiveram relacionados com a produção do conhecimento de vanguarda, e da mesma maneira como um cientista pode considerar absurdas e fantasiosas as aspirações alquímicas, os grandes adeptos considerariam os objetivos da ciência reducionistas e desprovidos de alma.

Diferença já definida no ponto de partida de ambas as correntes de pensamento, sendo que os defensores da escrita-letra, sempre buscaram elucidar o universo buscando o caráter objetivo do mundo, enquanto os seguidores de Hermes buscam uma conexão subjetiva entre a escrita-imagem e o universo.

Hutin (1979) observa que o filósofo hermético acredita que através destes segredos artesanais milenares, é possível uma interação do espírito com a matéria, mas para que isto seja viável é necessário o estabelecimento de uma relação espiritual do adepto com o Cosmos. Além da adequação a certas especificações técnicas que envolvem forças da natureza: como a força gravitacional da Lua (por isso a obra seria realizada somente à noite); o campo eletromagnético terrestre (assim sendo impraticáveis as operações alquímicas em regiões muito próximas a linha do equador); a natureza benigna do operador, (sendo impossível para um individuo ímpio o sucesso na Grande Obra);  entre outras, como o estabelecimento de um casal alquímico; o posicionamento dos astros e as revelações através dos sonhos ou visões, ou da técnica mais tarde elaborada e descrita como Imaginação Ativa, desenvolvida inclusive a partir de profundos estudos sobre a alquimia realizados por Jung.

Enquanto o método cientifico busca estabelecer e comprovar teorias para interpretação do universo; através de leis gerais que possam ser reproduzidas a partir do estabelecimento controlado de experiências objetivas. A filosofia hermética acredita estabelecer uma conexão com a alma presente em toda a matéria e no operador; e que com o sucesso de suas experiências seria possível adquirir uma compreensão divina das leis cósmicas e a vitória sobre a morte.

O desenvolvimento atual da “medicina para imortalidade” de Raymond Kurtzell, afirma que em um futuro não muito distante, a humanidade terá superado a morte; através do uso controlado de medicamentos; boa alimentação e implantes cibernéticos, é um indicio revelador, que no fundo, aparentemente, cientistas e alquimistas possuem os mesmos ideais utópicos e profundamente humanos.

 

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